11 fevereiro, 2007

Concerto : NIN no Coliseu

Pois é... Ontem à noite consegui realizar um dos meus sonhos de concerto: ver os Nine Inch Nails ao vivo! Assim sem dar por ela, o primeiro álbum deste projecto de Trent Reznor já data de 1989, ou seja, os NIN estão-se a aproximar muito rapidamente dos 20 anos de idade, o que normalmente significa (para a maioria das bandas) a passagem automática ao estatuto de dinossauro... Isto implica que também estava quase à 20 anos à espera desta oportunidade, visto seguir fanaticamente a actividade deste senhor desde o 1º disco...

O concerto felizmente correspondeu às expectativas, sem ter sido propriamente uma experiência quase religiosa. O alinhamento estava muito bem escolhido a representar a totalidade da discografia, e a juntar aos obrigatórios (Hurt, Head Like a Hole, etc.) algumas surpresas como Last (do EP Broken) ou Burn (da edição de luxo de The Downward Spiral). Não houve infelizmente espaço para estrear músicas do novo disco a sair em Abril: Year Zero que teoricamente é um concept album de carácter mais politico do que o habitual... O som estava perfeito, a perceber-se perfeitamente o que o Reznor cantava, apesar do nível elevado de barulho da música, e as luzes minimalistas e sem qualquer projecção no fundo, mas a criarem imenso ambiente. A banda prova ser uma máquina muito bem oleada, com toda a gente a trabalhar para o mesmo objectivo: a perfeição sonora...

Ao fim de uma hora e vinte cinco minutos a banda saiu de palco e não voltou... O público por lá ficou, exasperado por mais, com as luzes da sala acesas e os roadies a desmontar o palco... Eu confesso também ter ficado algo desmoralizado, porque estava imensamente entusiasmado, mas fiquei depois a saber que os NIN nunca fazem encores... Desvantagens de se ver uma banda ao vivo pela 1ª vez. Esta noite e amanhã repetem a dose... Se ainda não tiverem bilhete pode ser que ainda se arranje...

04 fevereiro, 2007

Discos : Início de 2007 em GRANDE!

A julgar por esta primeira amostragem, o ano de 2007 vai ser um grande ano para a música. Todos estes discos são regressos em excelente forma, de alguns artistas recentes e de outros com carreiras já longas, saídos ou a sair no primeiro trimestre deste ano. Com tanta coisa boa para ouvir, dou por mim indeciso a maior parte do tempo...


Arcade Fire - Neon Bible

A tentação de ir directo ao assunto e à questão que assalta o espirito de todas as pessoas que foram enfeitiçadas pelo primeiro album destes senhores é muito grande. E a resposta é SIM, correspondeu às expectativas, e ainda estou para decidir se não as superou. Digamos que desde Domingo de manhã (quando esta coisa chegou ao meu PC dividido em números) que não ponho outra coisa a tocar no meu iPod... Mas começemos pela introdução para os (muito) distraídos...

Os Arcade Fire são um ajuntamento de 10 Canadianos com formação musical clássica, que se dedicam a fazer música "post-punk" (o que quer que isso queira dizer) recorrendo a uma variedade grande de instrumentos que normalmente não se encontram neste estilo musical. Em 2004 lançaram um disco chamado Funeral que foi unanimemente consagrado pela critica (pelo menos a que interessa), e que lhes angariou uma horda de seguidores capazes de trocar o familiar mais próximo pela possibilidade de os ver tocar ao vivo.

Este Neon Bible é assim o "difícil 2º àlbum", só que neste caso não tem nada de difícil, aliás até é mais acessível do que o 1º, mas sem sacrificar nada da beleza nem do sentido de estarmos perante algo verdadeiramente original. Instrumentalmente está discretamente ainda mais complexo, mas com menos tendência para a guitarra electrica. Os vocais de Win Butler estão mais claros (provavelmente pelo aumento de confiança proporcionado pelo sucesso) mas mantendo toda a honestidade de sentimentos. Denota-se uma influência clara do Springsteen de início de carreira em 3 ou 4 músicas, mas mantendo sempre a lógica da banda. Definitivamente o disco deste trimestre que toda a gente deve comprar, e que vai com certeza fazer correr por aí muita tinta. ( 5 / 5 )




The Good, The Bad & The Queen - S/T


Já li em tanto sítio a composição deste novo "Super-grupo" / projecto do Damon Albarn (aquele que tem fama de ser um gorila desfocado), que sinceramente não me vou dar ao trabalho. Até porque a composição ficou nitidamente toda a cargo do Albarn, sobressaindo dos restantes membros apenas o baixo do bacano que era dos Clash. A instrumentação dos restantes membros é tão discreta que está lá mais para efeitos de ambiente que outra coisa.

Estamos assim perante um disco que parece quase do Albarn a solo e que segue um pouco em continuidade, juntando aos momentos mais melancólicos dos Blur de 13 e Think Tank, os valores de produção dos discos dos Gorillaz (o Danger Mouse também produziu este, pelo que não é de estranhar). É no entanto provavelmente o disco mais consistente de toda a carreira do Albarn, com o seu tom desencantado e desiludido sobre a realidade actual (e pessoalmente é neste registo que os vocais dele melhor funcionam), brilhantemente acompanhado por música muito atmosférica e perfeita para dias cinzentos. Apesar de muito bom, gostaria de ver Albarn a ser um pouco mais arrojado, nem que o fosse pontualmente, a partir alguma mobilia e a fazer coisas mais diferentes. ( 4 / 5 )


Grinderman - S/T

Falando em partir a mobilia, este novo projecto do Nick Cave, começa da melhor forma a quebrar todas as regras com duas faixas (Get It On e No Pussy Blues) de um humor àcido corrosivo, com instrumentação brilhantemente minimalista mas bastante dissonante, a fazer lembrar mais o material dos Birthday Party dos que os trabalhos mais recentes. Representa-se assim da melhor forma o funeral dos Bad Seeds (a saída do Blixa Bargeld tem com certeza qualquer coisa a ver com isso), e o nascimento deste novo projecto em que Cave é acompanhado - de igual para igual - pelos ex-Seeds Martyn Casey, Warren Ellis e Jim Sclavunos.

O resto do disco, não deixando de ser maioritariamente brilhante (como Cave sempre nos habituou), não chega ao mesmo nível de fúria do início, ficando por isso mais próximo do habitual, apesar de instrumentalmente mais fechado. Seja como for, Cave continua a fazer discos extraordinários (é por isso que faço sempre a primeira audição com um entusiasmo fervoroso), e acho que deveriam tratar de o canonizar com urgência. Afinal de contas Saint Nick Cave ainda ficaria mais biblico... ( 4,5 / 5 )


LCD Soundsystem - Sound of Silver

O disco de estreia da banda de James Murphy em 2005, foi uma pequena revolução, com a sua filosofia de música de dança tocada com instrumentos reais, os vocais anasalados e cheios de humor e o seu célebre cowbell a marcar compasso... O sucesso critico foi grande e penso que o comercial também não terá sido nada mau. Murphy tinha assim um grande peso sobre os ombros para este segundo disco. Vamos lá a ver o que daqui saiu...

Existindo uma clara aposta na continuidade, este Sound of Silver tem um tom um pouco mais retro, com menos guitarra eléctrica, e com influências ainda mais nitidas. Arranca com o maravilhoso Get Innocuous! que começa a soar a Kraftwerk, e que evolui para uma sonoridade muito próximo dos discos que o Bowie fez com o Eno em Berlim, e termina com New York, I Love You (But You're Bringing Me Down) a fazer lembrar aquelas baladas deprimentes e sarcásticas que o Lou Reed fazia nos anos 70. Pelo meio não há nenhuma faixa que se possa considerar fraca, apesar de se acusar alguma repetição de ideias em Us V Them e Watch the Tapes. Murphy continua assim a fazer música que me dá boa disposição, e enquanto isso acontecer eu continuo a comprar... ( 4 / 5 )


!!! - Myth Takes

Também os Chk, Chk, Chk fazem o seu 2º round (que na realidade é o 3º) refinando a matéria anteriormente dada. Mantém a linha dance punk anteriormente utilizada mas, utilizando algo que só pode ser um truque de magia, simplificam a sonoridade por forma a tornar o som menos confuso, apesar de instrumentalmente ser mais complexo. O disco está cheio de momentos maravilhosamente mind-bending que não me deixam ficar parado, entre os quais se destacam Must Be the Moon, Heart of Hearts e Yadnus. Não se pode dizer que seja propriamente acessível, é daqueles que precisa de umas quantas audições para "entrar", mas as recompensas para quem fizer o esforço são muito agradáveis.

Nota ainda para a visita a palcos Portugueses marcada para os dias 4 (Porto) e 5 de Abril (Lisboa) porque a julgar pelos discos e por passagens festivaleiras anteriores, estes 8 moços em palco devem fazer uma bela festa... Eu vou lá estar ( 4,5 / 5 )


Patrick Wolf - The Magic Position

O miúdo prodigio que já nos tinha trazido os excelentes Licanthropy e Wind in the Wires (um dos meus discos de 2005), também consegue não desapontar com este seu novo disco. Um dos pontos mais inovadores da música deste moço é a junção que faz de chamber pop com toda a espécie de ruídos e ritmos electrónicos o que, somado a uma excelente voz e interpretação, resolta numa sonoridade muito própria.

Neste Magic Position as facetas electrónica e chamber estão um pouco mais discretas, sendo um disco bastante mais pop. Mas começa com 3 faixas fabulosas (Overture, Magic Position e Accident and Emergency) que nos fazem imediatamente perdoar a "nova orientação". Pelo resto do àlbum encontram-se mais umas quantas perolas, com destaque para o belíssimo dueto com Marianne Faithfull intitulado Magpie. Se os discos anteriores passaram muito discretamente pela critica, parece-me que o mesmo já não acontecerá com este, que vem confirmar indubitavelmente o talento e a capacidade de evolução do seu autor. ( 4,5 / 5 )


Kristin Hersh - Learn to Sing Like a Star

Ainda há dias proferia, quando da minha recomendação do Live it Out dos Metric, a minha admiração pelo equilíbrio entre pop e agressão que os Throwing Muses conseguiam fazer no início dos anos 90. A nostalgia por esses tempos era grande, e tanto a obra mais recente da Tanya Donelly (cujo This Hungry Life também deve ter edição por agora), como da Kristin Hersh (com o power trio 50 Foot Wave), apesar de interessantes não conseguiam preencher o vazio. Se me dissessem que Kristin ia fazer um album tão bom (se não ainda melhor) como a época de ouro dos TM, eu diria que estavam a brincar comigo.

Mas este disco é isso mesmo, uma mescla perfeita de pop, folk e rock, servido com a voz amarga e única a que nos habituou e que parece só melhorar com os anos. Em termos de composição também se nota uma imensa evolução para texturas menos previsíveis, e é daqueles discos muito bem produzidos em que se ouve todos os intrumentos de forma distinta, sem que isso se torne obstrutivo para o prazer da audição. Mais um a não perder... ( 4,5 / 5 )

30 janeiro, 2007

BD : Daredevil em Sintra


Foi com imenso prazer e surpresa que vi esta recente passagem do Matt Murdock por Sintra no Nº 90 do comic mensal (cliquem na imagem para ler o texto).

Aproveito esta oportunidade para recomendar vivamente a integralidade desta actual série do Daredevil (ou por nossas terras o Demolidor) que começou em 1998 sob o imprint Marvel Knights e que está muito próximo de celebrar o centésimo número. Por cá já passaram Kevin Smith (sim o famoso Silent Bob), David Mack, Brian Michael Bendis (com um ciclo ao nível do melhor de sempre - o do Frank Miller), e o título está agora nas mãos mais que competentes de Ed Brubaker (com arte do Michael Lark) e a coisa está a correr muito bem. Pessoalmente é capaz de ser a série mainstream contínua mais consistente dos tempos actuais, dado não ter tido um único filler ou story arc sem interesse, nem ter sido interrompida por nenhum cross-over.

04 janeiro, 2007

Discos : Esquecidos em 2006

Estou tão farto de ver listas dos discos do ano que decidi que este ano não ia fazer a minha. Aliás, não vejo grande interesse em fazê-la, dado já vos ter falado de alguns dos meus discos favoritos durante os meses transactos. Se mesmo assim ainda não tiverem satisfeitos, recomendo um pulinho a esta página do Metacritic onde podem ver uma catrefada de listas, bem como um resumo muito útil (lá para o fundo) dos álbuns mais votados (se quiserem poupar tempo, adianto que os grandes "vencedores" do ano foram os Arctic Monkeys, a Joanna Newsom e os TV On The Radio). Não quero no entanto deixar ignorados um conjunto de discos que, ignorados tanto pelos mass media como pelo me media, me proporcionaram consideráveis momentos de prazer durante o ano passado.



Subtle - For Hero : For Fool

Penso que é a primeira vez que me vêm a recomendar um disco de Rap. Não tenho nada de especial contra o género, mas acho-o tendencialmente demasiado formulaico, repetitivo e maioritariamente feito por pessoas com nível cultural (no mínimo) duvidoso (não me vão dizer que o 50 Cent é um dos tipos mais inteligentes à face da terra, pois não?). Como em tudo, existem excepções, e estes Subtle, que são um spin-off dos Themselves, e que já tinham feito uma colaboração extraordinária com os Notwist sob a designação de 13 & God, são uma delas. Se é um facto que vocalmente a coisa só pode mesmo ser classificada como Rap, a voz anasalada e aguda de Doseone é muito fora de vulgar (para não lhe chamar mesmo estranha) e em termos musicais tocam instrumentos a sério e vão a todos os lados. Resultado: um dos discos mais inovativos e complexos do ano, em que é clara a intenção de pesquisa de novos caminhos para a música, mas com o óbvio sacrifício do nível de acessibilidade (apenas uma faixa - The Mercury Craze - tem uma estrutura aproximativamente normal). ( 4 / 5 )


Justine Electra - Soft Rock

Este é um disco de estreia de uma Australiana radicada em Berlim, e segue na linha de convergência do pop/rock com o folk e a electrónica. Não sendo um disco excepcional, e apesar de se notar tendência para se levar a sério de mais, demonstra muito talento, e a Justine tem uma daquelas vozes que vicia, algures entre a Aimee Mann, a Liz Phair de início de carreira e as manas Casady normalmente conhecidas como CocoRosie. A produção simples e orgânica também lhe assenta muito bem. Portanto, um disquinho curioso sem nada de muito revolucionário, mas o facto é que se recusa a sair da playlist de novidades do meu iPod... ( 3,5 / 5 )


Casiotone for the Painfully Alone - Etiquette

Estes Casiotone, são um daqueles projectos de uma pessoa só, neste caso um tal de Owen Ashworth, que se dedica a "dizer" os seus poemas de forma melancólica e lenta sobre música quase exclusivamente criada com instrumentos a pilhas (aqueles orgãos electrónicos que toda a gente queria ter quando eu era miúdo). Para este Etiquette, o autor decidiu quebrar um pouco o molde e incluir alguns instrumentos acústicos e os vocais de alguns amigos. Resultado: um verdadeiro paraíso de lo-fi em que conseguimos imaginar com toda a facilidade Owen (e companhia) com ar deprimido num apartamento cinzento e desarrumado em dia de chuva a fazer passar o tempo, com os seus dedos a tresandar a nicotina a carregar nas pequeninas teclas do brinquedo. Mais um disco que apesar de já ter saído em Março, não sai da minha playlist de novidades. ( 4 / 5 )


11 dezembro, 2006

Disco : Acoustic Ladyland - Skinny Grin


Numa altura em que toda a gente está a fechar as listas do melhor do ano, em que os escaparates estão mais virados para a colectânea para vender, do que nos albuns originais, apareceu este disquito para obrigar a malta mais atenta a alterar a lista. Depois do Cabaret Punk dos Dresden Dolls e do Gipsy Punk dos Gogol Bordello, vejo-me agora completamente viciado nestes tipos que praticam uma música que só pode ser classificada de Jazz Punk. Os mais incautos poderão pensar que eu sou um viciado em Punk à procura de todas as possíveis permutações do género, mas na realidade eu sou é fanatico das ditas permutações, ou seja, cada vez gosto menos dos "estilos" puros, e mais dos resultados obtidos com a mistura dos sons de maior disparidade possível. O facto de todos terem o punk à mistura, não é mais que uma pura coincidência.

Atacando então o motivo deste texto, e apesar de este já ser o terceiro disco da banda (o 2º - Last Chance Disco - também é imensamente recomendável), a informação que pude encontrar é muito reduzida, e a misteriosa (para não usar um adjectivo feio) página oficial não ajuda nada. Sei que o baterista também é membro dos Polar Bear e pelo sotaque dos vocais diria que são Ingleses, mas também pouco importa, porque a lingua que falam é a da música, e soam a algo que garantidamente nunca ouviram antes: post-punk (por vezes quase heavy metal) tocado com saxofone como instrumento principal, em vez da habitual guitarra. É logico que não poderão deixar de ter referências, afinal nenhum músico trabalha no vacuo, e por aqui se houvem traços de Coltrane e Morphine nas faixas mais calmas (que não são muitas).

O resultado é altamente motivante e entusiasmante, apesar de por vezes de difícil digestão (i.e. - não é propriamente easy listening), e deve ser ouvido por toda a gente que gosta que a sua música soe diferente. Felizmente ainda não publiquei (nem fiz) a minha lista de melhor do ano, porque se o tivesse feito, teria necessariamente de a alterar para incluir mais este, lá para os lugares cimeiros. ( 4,5 / 5 )

06 dezembro, 2006

BD : Pride of Baghdad


Baseado numa história real sobre um grupo de leões que escapou do zoo de Baghdad durante os bombardeamentos Americanos de recente e triste memória, este Pride of Baghdad é uma fábula / parabula em que os animais falam uns com os outros na melhor tradição de La Fontaine. Escrito pelo grande Brian K. Vaughan (Y: The Last Man, Ex Machina, etc.) e ilustrado por um brilhante quase-estreante Niko Henrichon, foi editado há uns dois meses em formato de hardcover pela Vertigo (o imprint adulto da DC de que sou quase religiosamente fanático).

A história é triste e de uma simplicidade extrema, mas essa simplicidade só amplia o seu impacto. O desenho de Henrichon é de uma beleza fora do vulgar e assenta na história como uma pluma. A única coisa de negativo que tenho a dizer é que é curto. As personagens estão tão bem pensadas e caracterizadas que gostaria de passar mais algum tempo com elas...

Esta é simplesmente a melhor BD que li este ano, e recomendo-a a toda a gente. Esperemos que alguém por estas paragens faça uma edição como deve de ser...

05 novembro, 2006

Série : Heroes

Não é meu habito falar por aqui das "séries da moda". Confesso ter seguido duas séries religiosamente nos últimos tempos (6 ft under e 24), mas em relação às restantes, tenho tendência a perder o interesse ao fim de pouco tempo... No entanto esta Heroes parece-me diferente, e tem culto escrito por todo o lado...

A premissa é muito simples: um conjunto de pessoas normais e afastadas geograficamente começa a ganhar poderes extraordinários sem se saber porquê, ficando claro muito cedo que o objectivo destes poderes é salvar o mundo. Nada de particularmente original por aqui, argumento de BD de super-heróis no seu mais básico, no entanto com o desenrolar da série a coisa ganha tematicas bastante mais adultas, com sexo e violência a pontuarem, e nitidamente a fugir um pouco à template... As personagens são bastante interessantes: uma cheerleader à prova de tudo, um estudante japonês capaz de manipular o plano espaço temporal, um politico capaz de voar, um pintor que vê o futuro quando se droga e que o passa para a tela, um polícia capaz de ler pensamentos, uma mãe de família com uma versão má atrás do espelho (que por vezes assume o controlo), e o mais curioso é que nem todas são moralmente correctas...

E depois tem um "não sei quê" que me parece faltar a todos os filmes de super-heróis que vi até hoje (e atenção que eu gosto de livros de super-heróis) e que é aquele pózinho que nos deixa maravilhados quando algo de inesperado acontece. Ao 6º episodio a coisa está muito misteriosa, e é com algum sufrimento que aguardo os novos capitulos... Tenho a perfeita convicção que a qualquer momento a coisa pode descarilar e deixar de ter qualquer espécie de nexo, mas até lá a viagem está a valer a pena...

02 novembro, 2006

Disco : Metric - Live It Out


Pois é, acho que é a primeira vez que me vêm a recomendar um disco, sobre o qual a Pitchfork disse mal (4.2 em 10). Como devem compreender, isto é extremamente limitativo para mim, uma vez que não poderei limitar-me a traduzir / adaptar a critica deles para por aqui, como é meu hábito... Agradeço por isso que façam o esforço adicional necessário para perceberem o que raio tenho a dizer sobre o disquinho.

Estes Metric são produto das mentes de Emily Haines e James Shaw, Canadianos e membros dos Broken Social Scene (também gostava de saber que músico Canadiano nunca pertenceu a este colectivo). Este Live It Out é o segundo album de originais e, apesar de ter saído no seu país de origem há mais de um ano, só foi lançado na Europa em Julho do corrente. Chego portanto um pouco atrasado à recomendação, mas como dizia o profeta proveta: Mais vale tarde do que cedo... Também me parece perfeitamente justificável o atraso, dado este ser daqueles discos que passam totalmente despercebidos e que eu só decidi procurar por ter gostado do video do excelentississimo Monster Hospital quando passou na MTV2.

Deixando de parte a filosofia e pegando o touro pelos cornos, devo dizer que concordo até certo ponto com a Pitchfork, porque de facto não consigo identificar o que o disco tem de especial. Eu diria que é daqueles discos que, apesar de esteticamente próximo dos "independentes", consegue ter um toque algo comercial que o poderia tornar um sucesso (se alguém quisesse apostar na sua promoção), mas que por outro lado sacrifica qualquer possibilidade de ser bem visto pelos media da Intelligentia (como comprova a critica da Pitchfork). O som é basicamente rock com residuos de pop, a fazer lembrar algumas das minhas bandas favoritas do início dos anos 90 (leia-se Throwing Muses, Belly, etc.). Aliás, faz-me lembrar particularmente o The Real Ramona dos Throwing Muses no equilibrio que este apresentava entre as melodias pop da Tanya Donnelly e os riffs agressivos da Kristin Hersh.

Tendo algo de inovador ou não, o facto é que é o disco que mais tenho ouvido durante esta 2ª metade do ano, continuando a ter indubitável prazer a cada nova audição... Por esse motivo não posso deixar de recomendar a vossa descoberta, e esperar que um dia venham a fazer um disco verdadeiramente enorme. ( 4 / 5 )

31 outubro, 2006

Blog : Contraculturalmente


As minhas fãs que me perdoem, mas a aquisição de um novo PC transformou-me num zombie cheio de olheiras que passa as suas noites à frente de um belo monitor LCD de 19" a fazer uma das seguintes coisas:

- a tentar por a porra do router a funcionar como deve de ser;

- a tentar por o raio da firewall a funcionar como deve de ser;

- a tentar partilhar a porcaria da impressora na rede sem fios cá de casa;

- a tentar matar desconhecidos on-line num software para teenagers mentecaptos e com falta de interesse pela vida que dá pelo nome de F.E.A.R. Combat;

Com isto tudo não tenho lido livros, nem visto filmes e, apesar de continuar a ouvir alguma música, não tenho tempo para escrever sobre ela...

Para remediar a situação trago a excelente notícia de ter encontrado um blog feito por uma pessoa que não conheço, mas que só pode ser uma alma gémea: o Contraculturalmente... A coisa está muito bem feita e parece ser um bocadinho mais consistente do que eu, pelo facto de conseguir no mínimo recomendar um livro, uma BD, um disco (ou discografia) e um filme por mês. Ainda por cima tudo de culto que é para a malta se cultivar...

Vá, vão lá ver e não se esqueçam que continuo a ser vosso amigo e que em breve hei-de ter muitas recomendações para vos fazer...

19 setembro, 2006

Livros : Férias 2006

Como já devem ter depreendido por este meu silencio de mais de um mês, estive de férias, e passei a semana que passou na tradicional "depressão de reinserção". Normalmente aproveito o meu maior periodo de férias para "desligar do mundo". Ou seja, não há cá DVDs, nem PCs, nem música nova... Os meus tempos livres pessoais e intransmissíves são assim dedicados à leitura, ao meu iPod e (muito raramente) à televisão...

Este ano, para não variar, aproveitei para ler uns quantos livros e, tendo gostado de tudo o que li, não li nada a que pudesse chamar uma obra-prima. Digamos que os autores repetentes apostam na continuidade sem grandes surpresas, e os novos não me convenceram totalmente... Curiosamente só ao escrever este post é que reparei que todos estes livros (tirando as BDs) têm como tema as relações familiares... Garanto-vos que foi puramente por acaso...

Os Suspeitos do Costume


The Bedroom Secrets of the Master Chefs
Irvine Welsh

Welsh é o autor do famoso Trainspotting que deu origem ao filme de Danny Boyle, e já em tempos disse maravilhas sobre os restantes livros deste homem... Este que é o seu primeiro livro em 4 anos (depois de Porno - a continuação do referido Trainspotting) não deixou de me desiludir um pouco, de tal forma segue a template delineada nas suas obras anteriores... Danny Skinner é um jovem inspector de higiene em Edimburgo, cínico e dado a todos os tipos de excessos, que anda a tentar descobrir a identidade do seu pai (o que a mãe ex-punk se recusa a revelar). No seu trabalho cruza o caminho de um tal Brian Kibby, tótó por natureza e coleccionador de modelos de comboios, por quem sente um ódio visceral desde o primeiro momento e sem saber muito bem porquê...

O livro está longe de ser mau. É possivelmente o mais acessível de Welsh, por ter uma escrita mais linear e utilizar menos o calão Escocês, e consegue ter uma certa resonância a tragédia Grega que não lhe fica nada mal. Mas como já disse, para quem já leu todos os livros do autor, surpreende muito pouco e, para estreantes, continuo a recomendar o demolidor Marabou Stork Nightmares...

Theft: a Love Story
Peter Carey

Este autor Australiano deveria dispensar apresentações para todas as pessoas que gostem de ler (apesar de muito pouco traduzido entre nós) dado já ter ganho o Booker duas vezes. Tenho acompanhado regularmente a sua bibliografia e gostei particularmente do seu livro anterior My Life as a Fake.

Theft conta-nos a história dos irmãos Bones: Butcher - pintor de profissão, e Hugh - sem profissão e ligeiramente autista, a partir do momento em que a sua vida pacata em New South Wales, é basculada irremediavelmente pelo aparecimento de uma tal de Marlene, numa noite de tempestade, levando os irmãos de Nova Iorque a Tóquio numa teia que envolve falsificação de quadros (ou talvez não)...

A história é interessante, sem ser particularmente original, mas Carey usa um dispositivo que a meu ver não funciona (ou se calhar só funciona para Australianos) ao alternar a narrativa na primeira pessoa entre os dois irmãos... O facto é que não me parece que os pontos de vista sejam suficientemente divergentes para se justificar este desdobramento, e as partes narradas pelo irmão atrasado, são de leitura bastante difícil, não só pelo calão, mas também pela forma de raciocinio da personagem. Mesmo assim o livro proporcionou-me uns momentos bem passados...

Impuretés
Philippe Djian

Penso que Djian é o autor Francês que sigo há mais tempo, na pratica desde que vi o célebre Betty Blue de Jean-Jacques Beineix (que já tem 20 anos e que me marcou muito na altura), baseado no seu romance 37º2 le matin. Desde aí, Djian tem publicado regularmente, tendo tido uma segunda parte de carreira investida pelo policial negro que não me motivou particularmente. O século XXI (e os seus 50 anos) parecem ter-lhe refrescado o espirito, e este já é o terceiro livro recente dele de que gosto bastante (depois de Ça, c'est un baiser e Frictions).

Impuretés coloca-nos no centro de uma familia atómica rica e desfeita: o pai autor famoso passado a drogado e actualmente dedicado à escrita de giões menores, a mãe actriz famosa com a carreira em queda e o alcoolismo a subir, a filha morta por afogamento oito meses antes do início do livro, e o filho mais novo, para muita gente suspeito da morte da irmã, que parece viver a vida num completo vazio sem objectivo. A acção desenrola-se numa colina, área residencial de moradias de ricos (quase condomínio fechado), em que todas as familias estão em auto-destruição, e sem sombra de esperança para encontrar a algo que se aproxime da felicidade. Um livro bastante negro, mas muito bem escrito e que recomendo a todas as pessoas que não tenham medo da depressão dos outros...

Novos Autores

The Motel Life
Willy Vlautin

Vlautin é o vocalista e compositor principal dos Richmond Fontaine, uma banda de alt-country desencantado, cujo último album intitulado The Fitzgerald foi bastante bem recebido pela critica (pessoalmente não delirei, mas não aprecio particularmente o estilo). As letras das músicas falam de vidas destroçadas e de solidão, e é este tema que passa para este pequeno livro extremamente belo (não só pelo texto, mas também pelas ilustrações).

The Motel Life conta-nos a vida de dois irmãos em fuga depois de um deles ter matado acidentalmente um rapaz que andava de bicicleta. Este deambular de motel em motel serve de pano de fundo para algumas viagens às suas memórias, e leva-nos a concluir que um azar nunca anda só...

O estilo da escrita é simples e poético, a fazer lembrar um pouco o Sam Shepard de Motel Chronicles, e permite-nos ter um elevado grau de empatia por estes irmãos sem destino e que, apesar de todo o azar que têm na vida, parecem nunca abandonar a esperança...

The Accidental
Ali Smith

Este livro foi bastante celebrado no final do ano passado dado ter sido shortlisted para o Booker prize e ter ganho o Whitbread. Mais uma familia atómica disfuncional e com dificuldades de comunicação incriveis, mas desta vez a forma de pensar de cada elemento e a forma como interagem é profundamente alterada pela presença de uma rapariga estranha chamada Amber.

Apesar de a história não ser muito original, a forma como está estruturada de forma pouco linear, e o virtuosismo da escrita ao adaptar-se ao ponto de vista de cada personagem, faz-me acreditar que a autora poderá vir a escrever grandes obras. Definitivamente a seguir, e este ainda por cima já está traduzido e editado por cá (pela Bico de Pena), e com o título "A Acidental".

Banda Desenhada

L'Enragé - Tome 2
Baru

Tenho seguido a obra de Baru de forma inconstante (ele também não publica muito), e no passado gostei particularmente de L'Autoroute du Soleil, a sua novela gráfica com dois amigos on the road... Este L'Enragé passa-se nos meandros do boxe profissional e permite-nos seguir a ascenção e queda de um campeão que veio do nada e se tornou numa estrela mediatica...

Se o ritmo do primeiro tomo me deixou muito satisfeito, este abranda e por esse motivo desiludio-me um pouco. Quanto ao desenho de Baru nada a apontar, é daqueles autores com um estilo inimitável e que é sempre um prazer re-encontrar... Pena que a história, apesar dos subtextos sobre a hipocrisia dos media, não esteja totalmente à altura.

Magasin Général - Marie
Loisel & Tripp

Loisel faz parte da minha lista de autores obrigatórios desde que li o seu La Quête de L'Oiseau du Temps, tendo também gostado muito da versão jubilatória que fez de Peter Pan.

Este é o primeiro volume de uma nova trilogia verdadeiramente a meias com Tripp (que eu desconhecia), e digo verdadeiramente, porque partilham responsabilidades tanto no argumento como no desenho. Passado numa aldeia algures no Quebeque nos anos 20, a história inicia com a morte do dono da única mercearia da vila, e segue de perto a sua viúva - a Marie do título.

No fundo é um livro sobre a vida de pessoas normais, que transmite na perfeição a alegria e o aconchego da família extendida de uma aldeia, e que penso que só será totalmente compreensível quando a trilogia estiver concluída. Se o desenho de Loisel já era excelente, os sombreados de Tripp parecem acrescentar-lhe profundidade, o que torna o desenho sumptuoso e perfeito para o ambiente pretendido. Gostei muito...

Rendez-Vous à Paris
Enki Bilal

Bilal dispensa apresentações para qualquer aficionado de BD, e eu junto-me de joelhos à longa fila de fãs que veneram o mestre. Este é o terceiro volume da trilogia iniciada em Le Sommeil du Monstre, e que misteriosamente passou a quadrilogia com a publicação deste volume.

Com este livro confirma-se a tendência já denotada no volume anterior (32 Decembre) para a abstracção. Se em relação ao desenho se pode considerar isso uma evolução para melhor, com o autor a trocar definitivamente o seu tracejado perfeccionista de outrora, por um estilo muito livre e próximo da pintura, em relação à história penso que não se pode dizer o mesmo. Não sei se estou a ficar estúpido com o avançar dos anos, mas isto parece fazer menos sentido a cada novo volume. Esperemos que o quarto seja mesmo o último e que permita encaixar as peças todas (ou pelo menos uma parte significativa). Definitivamente não é com este livro que devem descobrir o autor, mas se já conhecem e gostam, tenho a certeza que mesmo que eu disse-se que era um monte de esterco (que está muito longe de ser), não iam deixar de comprar...